Mentiras, Ladainhas & Afins

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Local: São Paulo, SP

JURO CÁ ENCONTRARÁ somente meias-verdades, histórias da carochinha e mentiras inteiras, com “M” maiúsculo.E deixo claro desde já que caso, por ventura, quaisquer dos fatos de fundamento duvidoso cá relatados – ou seja, TODOS, asseguro – se assemelharem com a verdade, ou a descrição de algum dos personagens lhe pareça familiar a esse político, aquele papa ou à senhora sua mãe: Isso é fruto da sua criativa imaginação, a carapuça serve a quem quiser. Por mais verdadeiro que o relato for, em algum ponto, pessoa ou nome tem o meu bedelho ou para no futuro não ser incomodado pela justiça ou pura e simplesmente para deixar a história/estória (a escolha vai da inocência de cada um) mais interessante. Assim sendo, é favor não me processar caso incomodados, não tenho grana para pagar indenização muito menos direitos por uso de imagem, e será a sua palavra contra a minha, e a minha, como já disse mas repito: É que é tudo ladainha! Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

21.9.11

CAPA DE REVISTA

Odiava ir ao dentista. Muito mais do que os aparelhos, os ferros, os cortes e o motor, muito pior que o motor era a espera.

27 anos, workaholic, auto-crítico, inteligente e - justamente por isso - uma relutância muito grande para compreender que é bonito. Os inteligentes e feios são mais bem aceitos socialmente e por eles próprios, a inteligência sendo espécie de compensação pela falta graça. Ele não, sofria para aceitar o rosto de garoto e o sorriso simétrico, lindo e largo que surgia por trás dos óculos. Uma dor de dente filha da puta. Quanto tempo mais?

O Iphone sem bateria, o notebook no carro. Vai que ele me chama enquanto eu vou lá pegar? Preferiu esperar. A gorda que esperava pela vez, sentada à sua frente, folheava uma revista popular. Não conhecia o nome, não sabia do conteúdo, na posição que estava só conseguia ver a capa.

Dessas de novela, sabe? Vermelhas e com letras garrafais em amarelo, sabe? Sabe, com o mocinho que sofre na capa?"Simetria de uma Vida, último capítulo: Tarcísio Carlos Manuel Filho diz pra Luiz Alcantara as suas intenções com ele".

Tomara que morra, esbravejou sem paciência. Desistiu da consulta e saiu: pior que dor de dente, só o núcleo gay da televisão aberta.


Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

1.1.11

CHANGING GIFTS

CRISTINA ACORDOU AOS pulos – bem como todo morador de uma grande cidade –, tomou seu café e regou suas begônias, suas orquídeas, seus pacovás que aos montes ocupavam sua varanda, trazendo lembranças das maravilhas botânicas de Maragogipinho e tingindo de verde-dubiroudo o cinza verticalizado lá fora.

Diferente de qualquer outro cosmopolita, Cris não acordava ao som de música ou do tradicional “TRIIIM” dos despertadores com orelhas de Mickey. O rádio-relógio era sintonizado na rádio de notícias:

-Bom dia! Sete-e-trinta-e-dois-da-manhã, vinte-e-nove-graus, OITENTA-E-DOIS QUILÔMETROS DE CONGESTIONAMENTO! Não peguem a 23 de Maio, não peguem a 23! NÃO PEGUEM.

Não pegarei! Não pegarei! Ria divertida nossa personagem ao dar o primeiro passo matinal. Ria pelo fato de não precisar pegar seu auto logo pela manhã (desde que perdeu um Fuscão 63, sua relação com o trânsito não é mais a mesma).

Mas aquela manhã era diferente, a cidade ainda dormia a ressaca da noite anterior. Era Natal.

Contabilizou a generozidade natalina dos seus amigos, percebeu que dentre a imagem de “Nossa Senhora Desatadora dos Nós” vinda diretamente de Maragogipinho, a camiseta “I Love Dubi”, o livro POP-UP de “Alice no País das Maravilhas”, 2 blue-ray que não funcionavam, 4 chapéus engraçados, 1 caixinha de papel entregue pelo rapaz do Censo (muito seu amigo), enfim, dentre tantos presentes adoráveis havia também 1 sapato nude de verniz e forro cor-de-rosa e outros 6 pares de belos tênis, mas nenhum impermeável.

-RAIOS! – bravejou a Cris – Por que tão bonito se não aguenta chuva?

Chuva sempre foi um problema para Cris. Não porque ela morasse na Zona Franca de Manaus – como já mencionei, nossa heroína mora em uma metrópole –, mas, por algum motivo não justificado por terapeuta nenhum, Cris anda sempre com um medidor de umidade do ar que um ourives amigo seu transformou em um broche. O menor anúncio de garoa já faz a nossa sempre querida estremecer e correr pra casa calçar galochas. Chuva nos calçados é praticamente a única fobia da sempre alegre Cris, a outra fobia é de lagartos daqueles rabudos de papo amarelo igual aos que encontrava aos montes em Maragogipinho. “Um local com tantas maravilhas precisava de um defeito, né? Mas na selva de pedra não há exemplar que sobreviva. Ufa!”

Cris iria trocar os presentes mas, antes, ajeitou a Santa de Maragogipinho na estante e preparou um chá cafeinado enquanto admirava a Santa em sua estante. Gloriosa! GLORIOSA!

Deixou o sapato nude de verniz de gosto duvidoso para trocar em melhor hora e correu trocar os pares de tênis.

Cris se ausentou esquecida de um detalhe: São ocos todos os Santos artesanais de maragogipinho.

Ao voltar do câmbio com 2 galochas novas, 1 capa impermeável, 1 chapéu que vira bote salva-vidas e 2 pares de tênis impermeabilíssimos, notou que a Santa estava caída e que havia migalhas de panetone por todos os cantos.

Pegadas de geléia anunciavam que a dona da casa não estava sozinha. Seriam de pombo? de camundongo? guaxinim? ratão do banhado? - Não!?! NÃÃÃÃÃÃO! Mil vezes não. As pegadas eram do maldido do lagartão do papo amarelo de Maragogipinho.

Vestiu seus coturnos brancos de guerra e começou a andar atônita pelos arredores no intuito de descobrir por onde raios entrou tal criatura: A santa caída, debaixo um buraco revelando o oco da estátua. “Na danada da estátua viajou o réptil”

Estressadíssima preparou correndo outra xícara do seu chá cafeinado e foi sentar-se no sofá a espera do lagartão aparecer. Outro grito. Outro mais alto.

Sobre o sofá, debruçado sobre seu livro POP-UP de “Alice no País das Maravilhas”, mais especificamente, sentado à mesa junto ao chapeleiro, lá estava o lagarto:

- Oxenti! Qui afobação danada é essa, mulé? Si assunte!

O lagarto falava, era letrado e adorava Lewis Carroll.

- Seu lagarto, saiba que o senhor é sim muito bem-vindo, mas por conta das felicitações natalinas estou exausto para visitas, faça o favor de voltar em hora mais benfazeja? – mentiu a dona da casa, com a voz tremendo cada vez que olhava o rabo.

Não teve conversa, o lagarto disse que não se demoraria, mas havia feito longa e exaustiva viagem, “Imaginas,bichinha, como é apertado dentro dessa Santa?”, e que ficaria no mais tardar um mês e meio, só para se restabelecer.

AAAAAH. Foi o quarto grito só ao imaginar que aquele folgado talvez cogitasse dormir na parede do seu quarto . “E se caísse em cima de mim durante o sono? Deve ser gelado esse infeliz. Cruz credo! Que Natal!”

Pegou a sacola do sapato de verniz que faltava ser trocado e fugiu para o shopping. Decerto acharia uma solução quando estivesse com a cabeça fresca. “Mas esse lagarto sai de lá hoje mesmo.”

Na loja, a solução foi imediata: Ao lado de um conjunto bolsa+sapato lia-se “LUXO LEGÍTIMO – Couro de Cobra”

- Quero o conjunto. Vamos, mocinho. Sim, sim, sou eu que passo aqui na vitrine todo dia! Me dê logo isso, troque por esse aqui. Acertarei a diferença, mas quero também a placa.

O sapato e a bolsa eram realmente de cobra, todo craquelado tal qual o couro de cobra costuma ser (coisa de perua, o que a nossa personagem não é nem de perto). Com a ajuda de um amigo vizinho , Cris fez uma pequena alteração na placa e correu pra casa já calçando os sapatos e chacoalhando a bolsa.

- IU HUUUU! Amiguinho gelado, veja só que boas compras eu fiz, estavam uma pechincha, você precisa ver.

O lagarto despediu-se do Chapeleiro, comeu mais um biscoito e com um chicoteio de rabo fechou com força a porta de saída sem se despedir.

Cris caiu na gargalhada, odiou os sapatos mas os exporia como troféu na parede. A bolsa embrulharia e deixaria frente à porta do quarto andar onde mora uma condessa muito sua amiga. Quanto à placa, irá pendurá-la emoldurada e iluminada ao lado do sapato:

- LUXO LEGÍTIMO – Couro de Lagarto de Maragogipinho!


Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

*texto escrito em um Moleskine dado de presente pela personagem dessa história

2.8.10

FUSCA, PATO, PEDRA E BACK-TIE



Dubiroudo era o fusca da Cristina Ferreira. Com ele muita história pra contar. Sempre que pode a Cris enche o peito e – com sorriso aberto – diz poucas, boas e absurdas do seu Dubi. E quando ela conta da viagem dela e do Dubi para Maragogipinho (BA)? É de encher os ouvidos.


Pois então, Cris e o tal do Dubiroudo, depois de pintarem os canecos juntos em uma viagem de ida e volta à Bahia, acabaram se separando. Motivo? O tal do Dubi se encheu da Paulicéia e foi cantar pneu entre os pescadores e santeiros de Maragogipinho e freguesias vizinhas. Pois é, partiu! Não houve Twingo ou Crossfox que consolasse a tal da Cris. Ela só queria saber do seu Fusquinha 63 verde oliva.


A amiga Pitu convidou a inconsolável Cris – que desde a perda do seu azeitonão-63 não saía de casa nem para ir ao mercado –, a convidou para uma viagem em terras de França, para espairecer.


- Escuta aqui, Pitu, querida! – arrebatou Cris. Quem come do arroz de Maragogipinho, quem pisou aquele solo não se contenta mais com viagenzinhas qualqueres não. Afinal, pra Paris todo mundo já foi, croassaint todo mundo já comeu. Mas e o arroz integral de Maragogipinho, me diga você, quem?


Semana depois estavam ambas – Cristina e a amiga Pitu – de mochila nas costas viajando a pé (“Só entro em carro se for no meu Dubiroudo”) pelo interior da França. Hospedavam-se em qualquer hotelzinho de beira de estrada, desses que nem constam no Google Maps de tão pequenos. Isso tudo só para satisfazer à sede de exoticidade da Cris.


Lá pela segunda semana de colchão-fino e bolhas no pé o pavio da Pitu encurtou. “Cris, pelo amor de Nossa Senhora Protetora dos Fuscas Independentes, minhas costas estão que são pura dor e hematomas. Meu estômago está nas costas. Isso aqui é a França ou é o quê? Por favor, vamos caçar um pouco de conforto, sim?”


O lugar escolhido era um castelo do século XVI – “Que decerto é assombrado”, opinava a Cris – onde diziam que se come do bom e bebe-se do fino, sem mencionar os colchões feitos com penas de pato que viviam pelas redondezas.


O Castelo era rodeado por plantações de trigo que complicavam o acesso direto, fazia-se necessária toda uma volta ao redor das plantações, duplicando, triplicando – talvez –, um caminho que em linha reta não demoraria mais que 10 min. Antes mesmo de pensarem em começar a contornar o mar dourado a Pitu é quase que atropelada por um rapaz a mil por hora em cima de uma bicicleta.


O rapaz entrou com tudo no meio da plantação. O trigal chegava a afastar, abrindo passagem para o moço.

- Eu falei para ficarmos em Paris, disse a Pitu. Isso de que francês é tudo educado é a maior ladainha que já puderam contar. Não bastasse as bolhas nos meus pés, as noites mal dormidas, os quilômetros rodados, as ovelhas que cruzamos e que só faltaram falar – tamanha a alegria de estar vendo alma viva pelas redondezas –, agora me vem esse troglodita desgovernado que só faltou me arrancar a vida ao passar com essa bicicleta.


- Mas, Pitu! Notou que ele usava black-tie? Que faz um ciclista de smoking?


- E lá tive tempo de notar o que vestia ou não vestia esse animal? É isso que ele é, um animal!


Agora era Pitu quem estava inconsolável. Cristina, por outro lado, começava a gostar mais da viagem, queria que Dubiroudo estivesse por perto pra presenciar, certeza que ele gostaria de invadir o campo de trigo tal qual o ciclista fez com a bike.


Deram toda a volta. Hospedaram-se. Os colchões eram a maravilha toda que disseram. “As acomodações são dignas de primeiro mundo” - Pitu estava em polvorosa. “Agora sim começamos a viagem, aqui sim – em meio ao luxo, ao conforto – tenho eu a certeza que idiota nenhum vai tentar me assassinar sobre duas rodas. Decerto eles proíbem a entrada de ciclistas em tamanho desbunde, é ou não é, Cris? Venha, dê cá uma olhada nessa vista (Pitu estava debruçada na janela que, aberta, deixava ver a paisagem por detrás dos trigais). Que maravilha, que ares, que primores. Olha aqui, Cris, larga essa mala!


- MAS EU SÓ TO VENDO PATO E PEDRA!!! Melhor fechar essa janela, eu não to vendo maravilha nenhuma, e vai que a bicicleta daquele ciclista era aquela que o Spielberg usou nas filmagens de ET, sabe? A bike voa, menina, você tá frita! – brincou a Cris.


Bateram na porta do quarto, devia ser o Concierge avisando que o jantar estava posto. Pitu atendeu a porta. Caiu desmaiada no chão. E a Cris teve um ataque de riso ao perceber que do outro lado da porta quem batia era o tal do ciclista de back-tie, funcionário do Castelo.


Tava justificado o Smoking.


Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

23.10.09

ÁGUA PELAS CANELAS


ERA UMA SEGUNDA-FEIRA. Por volta das seis horas os moradores do residencial da Herculano de Freitas dormiam.

Dias anteriores ao incidente, o rapaz do 44 – Hélio, eu acho – recebeu por visita o Senhor Seu Avô. Que segundo relato do tal rapaz, que não é de falar muito e nunca segura o elevador, veio pra ajudá-lo a pintar o apartamento. Bom, não sei que ajuda brava foi essa visto que eu só encontrava o vovô sujo de tinta. Sem mais delongas, era por volta das seis e pouco quando eu ouvi o barulho.


Houve um barulho, os moradores disseram. Gritos. Hélio/Heleno/Hiago, o avô gritava. Nenhum dos moradores sabia ao certo o nome do morador do 44. Todos concordavam: Não, nunca segura o elevador o tal mal-educado. Depois do barulho, cortaram o abastecimento de água. Chuva de ligações para o porteiro. “Viu, é que o Avô do rapaz-do-44-que-não-segura-o-elevador quebrou sem querer o registro do banheiro. Foi necessário fechar porque a mocinha do 34, o apartamento debaixo, sabe?, estava já com água pelas canelas. A água jorrava do teto, infiltrou, um horror... Há que compreender!” explicava o porteiro ao morador que ligava desesperado.


- Pois diga o Senhor-Porteiro à egoísta do 34, que ela está reclamando é de barriga cheia. Visto que preciso ir trabalhar, sofro de sudorese e se não me banho, tenho péssimo rendimento na firma. E enquanto a dondoca tem as Cataratas do Niágara no seu banheiro, eu tenho que me contentar com o Saara no meu chuveiro.


O porteiro, prestativo, passou o recado. A moradora do 34, que não é “besta de ouvir desaforo em casa” fez questão de interromper a drenagem que fazia em seu banheiro com auxílio uma bacia e da filha pequena. Colocou muito-macha as mãos nas ancas, Péra lá!, encheu uma boa baciada d’água e correu bater à porta do Suadinho do Saara.


Enquanto a moradora do 34 acertava suas diferenças com o rapaz da sudorese – que a essa altura já estava bem molhado –, dentro do 44, um avô de seus 67, um neto de seus recém completos 22, deitados no chão do banheiro, ambos molhados, gargalhavam e lembravam de quando o rapaz, ainda criança, não conhecia o mar e teve medo das ondas.


Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

2.8.09

Chá, gripe suína e palavras bonitas


ESTAVAM DEITADOS NA CAMA. Dois meninos. Um deles doente, o corpo encolhido, a cabeça deitada no peito do outro menino que o abraçava. A garganta doía.

- Vou fazer um chá pra ver se você melhora!

Levantou. Foi até a cozinha. Barulho de talheres. O corpo nu fazia sombra nas paredes.

- - -


- Hei, hei! – ele tinha cabelos cacheados e tinha uma caneca de chá nas mãos.
- Você demorou... - meio adormecido, cabelos lisos, costas largas, garganta inflamada, trintaenovegraus.
- Fui fazer seu chá, lembra? Tá pronto, ó. Senta!

- - -

A caneca estava vazia no chão ao lado da cama. Os corpos nus agora cobertos. Fazia frio. Volta a cena do abraço.

Talvez tenha sido o efeito do chá ou o delírio da febre:

- Posso te contar uma coisa?
- Pode! respondeu o de cabelos cacheados. Achando que falariam sobre chás, sobre doenças de infância, sobre a saudade de casa. Medo de altura, talvez; Quem sabe de avião.
- Eu te amo.

Sabe você, leitor, quando o corpo arrepia, os olhos lacrimejam? Saberia você algo sobre aquele momento em que o abraço estreita, as palavras fogem, a alma sorri?

- Eu também...
Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

10.7.09

Sobre fim e recomeço

Eu ouço dele as queixas sobre o outro. Tolero. Consolo. Ele ouve a minha saudade, as minhas lembranças, as minhas comparações. Falamos sobre o fim. Sobre o nosso recomeço.

Por enquanto tudo muito confuso: não há ciúme nem cobranças, apenas um vácuo deixado pelos rompantes dos relacionamentos anteriores.
Eu. Ele. Uma vontade louca de acreditar que dará certo.

Está dando...

Tácio.Oliveira - O.Mentiroso
.imerso na situação em que duas pessoas se encontram para esquecer o passado.


















. cores e um coração partido .

15/05/2009

.cena de dois meninos crescidos que resolveram procurar a felicidade um sem o outro.

Menino da direita veste: Moletom Juliano Lopes
Menino da esquerda veste: Jaqueta uMa – por Raquel Davidowicz
Guarda-chuva Benetton

Direção de arte: .a vida.

Tácio.Oliveira - O.Mentiroso

7.7.09

NA SALINHA


A MÃE LIGOU NA ESCOLA avisando que se atrasaria para buscar o rebento. “Deixe-o naquela salinha de brinquedos, sim? Não há de atrapalhar nada!!! Sim-sim-sim, tome você o seu café, faça suas coisas sem preocupação, você verá como meu tesouro se diverte fácil. Nem o notará.”

A salinha a qual a mãe se referia se chamava “Brinquedoteca”, que é o nome chique que se dá pra designar salinha de brinquedos, “sim?”.

Depois de terminada a aula e todas as crianças terem ido embora, Hector Petre foi tomado pela mão: “Vem com a Tia, tá bom? Sua mãe mandou dizer que se atrasa. A Tia vai te levar num lugar super-bacana!”

Hector Petre, que não se surpreendia com qualquer coisa, não demonstrou muita expectativa com o lugar super-bacana da professora. Queria mesmo é saber por que caraminholas a mãe atrasou-se. Ficou pensando! Decidiu que só podia ser por causa de seu aniversário que muito em breve acontecerá. Fará 5 anos completos. Uma mão cheia! Pediu de presente Criptonita, sempre quis saber o que é que tinha naquelas pedrinhas que deixavam o Super-Homem tão pra baixo. Na certa sua mãe se atrasou porque foi arranjar as tais pedrinhas pra botar numa caixa bem bonita. O Super-Homem que o aguardasse, rá!

A Tia – ainda segurando Hector Petre pelas mãos – abriu uma porta, revelando ao garoto o lugar "super-bacana".

Uaaau! – disse Hector Petre, os olhinhos brilhando.

Ele largou da mão da Tia, saiu em disparada, passou uma chave de braço num leão de pelúcia que por ali estava:

-“TE PEGUEI, Láion, seu fujão!” Olhou para uma boneca que estava ao lado: Obrigado por avisar, madame, é a terceira vez que esse Leão velho aqui foge do meu circo. E arrastou Láion pela cauda até o centro da sala colorida, em cima de um tapete que seria o picadeiro. Seria...

Hector Petre avistou uma espingarda de madeira: BANG-BANG! BANG-BANG! Fujam seus índios cara-de-cuíca senão eu atravesso a cara de voc... Já correu e montou num cavalo-de-pau que estava dando sopa: Eeeeia, Bala-no-Alvo, seu pangaré danado. Pocotó, pocotó, pocotó. Esquecendo-se que era um Fora-da-Lei se deixou envolver demais pelo trotar do seu cavalo, quando deu por si tinha virado um Jockey.

Hector Petre, o Domador-Forasteiro-Jockey, arfando de cansaço encostou-se numa almofada de Smile que estava ao canto, perto de uma arara de fantasias e um enorme espelho.

Descansado que ficou após 5 minutos de repouso e uma faxina na narina esquerda, botou reparo em algo rosa, brilhante, cheio de tules, fitas e laçarotes que estava belamente dependurado na arara. “Mas vejam só se não é o vestido da Princesa!!!” Resolveu por mera experimentação vesti-lo, por que não?

Vestiu-o!

Visto que o espelho era deveras bonito e que estava lá para esse fim, Hector Petre ficou se admirando nas roupagens da Princesa. Chacoalhava o saiote pra lá, dava uns giros aqui, uns saltos ali. Aquele tule todo devia servir pra isso!

Depois de fazer as experimentações devidas ficou se olhando no espelho, notando como era engraçado isso de ser menina e gostar de colocar aquelas coisas. Até porque rosa não é uma cor muito bonita. Foi perguntar ao Láion o que ele pensava sobre as meninas...

HECTOR PETRE!!! TIRE ESSE VESTIDO AGORA! – a mãe tinha chegado, muito brava e sem Criptonita.

Hector Petre de cabeça baixa e sem entender o motivo da bronca, tirou o vestido. Despediu-se do Láion – que nem era tão fujão assim -, guardou o Bala-no-Alvo no estábulo e, arrastando o pé, foi ao encontro da mãe, que batia intermitentemente a ponta do sapato no chão.

A mãe tomou-o pela mão e saiu porta à fora da Salinha, agachou na altura do olhar de Hector Petre: Você nunca, NUNCA, mais faça isso. Entendeu?

Entendeu tão bem que desse dia em diante passou a brincar só com Príncipes.

Tácio.Oliveira - O.Mentiroso